O impacto de uma vida, por Geraldo Lavigne de Lemos
Apesar de mais de dois milênios discutindo o valor da vida humana, parece que Sócrates, Platão, Aristóteles, São Tomás de Aquino, Santo Agostinho, Hegel, Marx, Kant e tantos outros não foram capazes de extirpar a desumanidade da ganância. Vamos pular a discussão sobre a afirmativa de que, sem o isolamento social, as empresas parariam pelo adoecimento dos trabalhadores. A contabilidade tem gerado demissões, e os pedidos de algumas pessoas para retorno das atividades visam a proteção da contabilidade e não do emprego. Se o valor da vida humana não tem sido suficiente para alguns, vamos admitir então a “pessoa como um produto” e o “consumo da pessoa como investimento no mercado”, com dois critérios muito simples. Anote-se, por oportuno, que tais critérios refletem apenas parcela pouco abrangente dos impactos financeiros de uma vida.
De um lado, no remoto ano de 2012, criar um filho dos 0 aos 23 anos chegava a custar R$2.000.000,00 (1). Considerando as variadas estimativas por grupos (2), podemos admitir a média de R$873.735,00. A grosso modo (bem grosseiro), vamos admitir que esse é o custo de produzir uma pessoa até a idade de 23 anos.
De outro lado, a expectativa de vida de um brasileiro é 76,3 anos, segundo o IBGE (3). A pirâmide etária (4) brasileira prova que 57,1% da população de 208 milhões tinha mais de 30 anos de idade em 2018. Hoje a população brasileira supera 211 milhões de pessoas (5).
A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE de 2018 afirmou que as famílias gastaram em média R$4.649,03 por mês e que 58,4% desse total eram com despesas de alimentação, habitação e transporte (6). Segundo o IBGE, em 2008 as famílias eram compostas em média por 3,3 pessoas (7), e o valor tem tendência de queda (8). Podemos, então, admitir que cada pessoa consome em média R$1.408,79 por mês.
Ora, com as médias acima, a morte de uma pessoa representa (i) a perda de R$873.735,00 investidos na formação (uma espécie de capital imobilizado); (ii) a retirada de R$1.408,79 injetados por mês na economia em uma projeção de 46,3 anos (diferença dos 30 aos 76,3 anos), que soma uma quantia de R$782.723,72 perdidos imediatamente; e (iii) a demora de no mínimo 23 anos para criar e repor uma “pessoa como produto”, oferta cada vez mais escassa (9).
Multiplique-se isso às projeções do COVID-19 feitas pelo Imperial College of London (10):
• 1,15 milhões de mortos deixarão de injetar na economia R$900.132.278.000,00 (mais de 900 bilhões de reais), além de representar perda de R$1.004.795.250.000,00 (mais de um trilhão de reais), no cenário de ação zero;
• 529 mil mortos deixarão de injetar na economia R$414.060.847.880,00 (mais de quatrocentos e dez bilhões de reais), além de representar perda de R$462.205.815.000,00 (mais de quatrocentos e sessenta bilhões de reais), no cenário com foco no distanciamento dos idoso;
• e em média 125 mil mortos deixarão de injetar na economia R$97.840.465.000 (mais de noventa e sete bilhões de reais), além de representar perda de R$109.216.875.000 (mais de cento e nove bilhões de reais), no cenário de distanciamento social intensivo em larga escala.
Podem fazer a perspectiva populacional que for, os valores serão sempre astronômicos. Podem considerar apenas as mortes dos idosos ou outras faixas etárias, os valores serão astronômicos. Podem considerar que o Brasil passará por essa crise sem doentes, e os valores continuarão astronômicos porque a crise mundial se avizinha.
A despeito de todas as hipóteses irreais e desumanas de quantificação de uma vida, ainda torço e defendo que a luz da compaixão haverá de iluminar os pensamentos mesquinhos, mostrando-os que uma única vida é mais valiosa do que a economia. Pessoas não são números para esses fins. O desemprego é passageiro, a morte não. Todavia, se alguns não querem pensar na pessoa, que pensem no consumidor.
Eu não abordei nesse texto outros assuntos polêmicos que são muito importantes também, tais como ausência de incentivos aos empregados, ausência de proteção e manutenção do emprego, ausência de propostas de flexibilização da rotina, ausência de propostas de fixação de grupos de trabalho, ausência de definição de estratégias para redução da superlotação dos transportes públicos, ausência de reformulações e medidas de cuidados especiais (que vão muito além do álcool 70) nos locais de trabalho etc.
A falta de medidas de curto prazo causará graves impactos na qualidade de vida, e isso é certo. Não estamos mais no ambiente de antes. Pensar que voltar à situação anterior resolverá a crise, a exemplo da retomada imediata das atividades, é desconsiderar o advento do COVID-19. Precisamos adaptar as coisas à nova realidade e as primeiras medidas de enfrentamento devem ser aquelas que garantirão o básico, sem expor irrefletidamente as pessoas aos riscos da doença. Vamos juntos.
O autor Geraldo Lavigne de Lemos é advogado, trabalha em São Paulo. É também considerado um grande poeta da nova geração, publicado nas mídias e veículos mais conceituadas da literatura contemporânea. Tem muitos livros publicados. É membro da Academia de Letras de Ilhéus onde ocupa a Cadeira 23, cujo Patrono é Guttemberg Berbert de Castro, do fundador Ramiro Berbert de Castro. É sucessor de Mário de Castro Pessoa.
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(1) Disponível em: https://exame.abril.com.br/seu-dinheiro/quanto-custa-criar-um-filho-e-como-se-preparar-para-isso/ Acesso em: 28 de março de 2020.
(2) Disponível em: https://epocanegocios.globo.com/Informacao/Resultados/noticia/2013/02/ate-os-23-filho-pode-custar-ate-r-2-milhoes-no-brasil.html Acesso em: 28 de março de 2020.
(3) Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/26103-expectativa-de-vida-dos-brasileiros-aumenta-para-76-3-anos-em-2018 Acesso em: 28 de março de 2020.
(4) Disponível em: https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18318-piramide-etaria.html Acesso em 28 de março de 2020.
(5) Disponível em: https://www.ibge.gov.br/apps/populacao/projecao/ Acesso em: 28 de março de 2020.
(6) Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/25598-pof-2017-2018-familias-com-ate-r-1-9-mil-destinam-61-2-de-seus-gastos-a-alimentacao-e-habitacao Acesso em: 28 de março de 2020.
(7) Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/759#resultado Acesso em: 28 de março de 2020.
(8) Disponível em: https://labsfac.ufsc.br/2016/05/23/dados-do-ibge-queda-substancial-no-tamanho-das-familias-brasileiras/ Acesso em: 28 de março de 2020.
(9) Disponível em: https://veja.abril.com.br/economia/populacao-brasileira-deve-atingir-auge-2047-e-comecar-a-cair-diz-ibge/ Acesso em: 28 de março de 2020.
(10) Disponível em: https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,estudo-preve-ao-menos-44-mil-mortes-de-covid-19-no-brasil-isolar-so-idosos-eleva-n-para-529-mil,70003251026 Acesso em: 28 de março de 2020.